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Extraido do Livro: Namoro, noivado e casamentos Lombo do Atouguia
De: Maria Elisa de França Brazão
Edição: Edição da Câmara Municipal da Calheta
Ano: 1991
 Foto da capa do livro
O casamento fazia-se antigamente bem cedinho, entre as 5 e as 5:30 da manhã. Em 1970 embora se realizassem sempre da parte da manhã são já às 7 ou 8 horas. A partir de 1976, esta cerimónia religiosa passa a efectuar-se mesmo na parte da tarde. Os convidados reuniam-se em casa da noiva e era-lhes servido um cálice de aguardente, café, pão e manteiga. Aí estavam presentes os amigos, os familiares e os vizinhos que acompanhariam os noivos à Igreja. Toda a gente se conhece e há um tratamento familiar, onde as alcunhas não magoam ninguém. Assim, neste Lombo do Atouguia, poderão estar presentes no cortejo: o Meirinho, o Grilho, o Coelho, o Crujinha, o Ratinho, o Gatinho, o Tiofa, o Bacalhau, o Vinagre, o Peladinho, o Caladinho, o Capa-bois, o Guinchão, o Fufas, o Bastião, o Capichão, o Perrolas, o Unhinha, o Raivinha, o Rei, e muitos outros que difícil seria enumerar.
Segue-se o percurso para a Igreja. Desde 1960, data oficial da criação da paróquia do Atouguia, com sede na Capela de S. Pedro de Alcântara, que os casamentos nela se realizam. Antes da existência oficial da paróquia, os noivos e convidados deslocavam-se à Igreja do Espírito Santo, na vila da Calheta. Percorriam, durante cerca de uma hora os cerca de 6 quilómetros, por caminhos íngremes e estreitos.
Só acompanhavam os noivos à Igreja os convidados do sexo masculino, com excepção para a madrinha e duas ou três crianças (foto n° 1). As mulheres
 Foto n° 1
ficavam em casa a preparar o banquete. Com o decorrer dos anos, alguns familiares do sexo feminino integram-se também no cortejo e comparecem na cerimónia religiosa.
Depois da Missa e já no adro, a noiva distribui um raminho artificial de laranjeira a cada convidado, que o coloca na lapela do casaco. Anos mais tarde será a própria noiva que se encarregará de pregar ao peito de cada um, o respectivo raminho. Estes eram anteriormente encomendados à senhora D. Amélia Maciel, moradora ao Sítio da Boa Morte que primorosamente os confeccionava para as festas de noivado da freguesia e arredores.
No regresso da igreja e durante o percurso, as pessoas que conheciam os noivos, esperavam o cortejo e sobre ele atiravam pétalas de rosas. No fundo da bandeja onde estas se encontravam havia trigo. Este seria recebido em sacos por alguns convidados encarregados desse serviço atingindo por vezes o peso de alguns alqueires. Parte desse trigo era semeado e testemunharia a sorte dos noivos, consoante o resultado da sementeira.
De regresso a casa, a mesa já estava posta com "doces e bebidas".
A cozinha tornava-se local demasiadamente exíguo para a movimentação do dia, o que ainda hoje acontece. Assim, sob uma latada de vinha, alinhavam-se vários "lares" (lareiras formadas por 3 pedras, sobre as quais se colocavam as panelas) provisórios, onde as mulheres afanosamente preparavam durante todo o dia, as refeições a servir.
Para o serviço das mesas, a baixela familiar não era suficiente. Por isso, os vizinhos e os amigos emprestariam "a sua loiça", assim como as toalhas brancas que seriam necessárias para as extensas mesas que se construíam "no terreiro".
Cerca das 10 horas servia-se o almoço, constituído por "um prato de ensopado" de carneiro ou de vaca e outro de bifes com macarrão, acompanhado com refrigerantes, vinho ou aguardente. Passadas 2 ou 3 horas distribuía-se o caldo de galinha com arroz, salada de frutas, acompanhados com bebidas. Pela tarde, era servida novamente uma refeição: cuscus ou arroz com carne assada. Em tempos mais recuados oferecia-se um cozido à portuguesa. Nos intervalos das refeições os próprios noivos se encarregam de servir constantemente aos convidados aperitivos diversos, bebidas e "doces".
À noite, há ainda chá preto com bolos, biscoitos e "empadas" de carne.
O número de convivas pode ser tão elevado que não se torna possível servir todos ao mesmo tempo. Assim, a primeira mesa destina-se aos noivos e aos convidados que fizeram parte do acompanhamento (na sua maioria homens), a segunda às crianças e a terceira às mulheres convidadas e àquelas que ajudaram na cozinha à preparação das refeições.
As horas deste dia desenrolam-se calmamente, entre um contínuo vaivém de refeições e bebidas. Os homens ocupam o tempo a conversar, a jogar à bisca ou ao dominó (foto n° 2). As crianças, reunidas com os vizinhos, divertiam-se
 Foto n° 2
com as suas brincadeiras próprias: o jogo do lenço, as escondidas, as pedrinhas. Às mulheres, ocupadas com todos os afazeres da "festa", sobra-lhes pouco tempo para a conversa com as amigas.
Costume que ainda nos nossos dias permanece arraigado profundamente, é o da "distribuição dos pratos".
No dia do casamento, durante a tarde, a cozinheira encarregada da festa, ajudada pelos familiares, procede à distribuição dos pratos. Esta consiste na oferta dos pais da noiva, a todos os familiares e amigos, de um prato com arroz regado com molho, cuscus, carne cozida, carne assada, 1 pão, bolos e biscoitos. Nesta distribuição um dos familiares descarrega o nome dos destinatários, de uma longa lista já preparada anteriormente (foto n° 3).
 Foto n° 3
Começam então a ser levados por todo o Lombo e arredores em caminhadas de quilómetors que podem durar horas. Os cestos são embelezados com panos bordados que fazem parte do enxoval da noiva.
O vigário da freguesia recebeu na véspera, 1 galinha, 1 pedaço de carne de vaca, cuscus, arroz, bolos e bebidas, com que poderá preparar uma bela refeição. É de notar que estes são os ingredientes que não vão cozidos.
Segundo o depoimento da senhora D. Carolina Sequeira, afamada cozinheira das bodas deste Lombo e arredores, já chegou, em algumas bodas, a preparar mais de 100 pratos, acompanhados, nos casamentos mais fortes, pelo carregamento de um camião com refrigerantes.
Em algumas destas festas, como se deduz com facilidade, era feita uma despesa de milhares de escudos que só a moeda estrangeira trazida pelos emigrantes, podia suportar.
Para que este dia perdurasse, desde tempos mais antigos, era hábito "tirar o retrato". Há 60 anos, os noivos mais abastados deslocavam-se ao Funchal alguns dias após o casamento e aí, "com o fato dos noivos" se retratavam. Alguns anos mais tarde faziam paragem no sítio da Estrela, onde no fotógrafo ali existente, tiravam a fotografia, os homens e as mulheres separadamente. Hoje, o fotógrafo desloca-se à casa dos noivos onde faz a reportagem fotográfica.
Nos dias anteriores ao casamento, os convidados enviaram já as prendas para a casa do noivo ou da noiva, consoante o conhecimento e a amizade de cada um dos convidados.
A noiva comprometer-se-à, ao longo dos anos, a retribuir a oferta às amigas que se forem casando. O facto de emigrarem não as desresponsabiliza deste compromisso, pois a oferta ao novo casal far-se-à através dos familiares presentes na terra natal.
Em épocas mais recuadas, há cerca de 70 anos, as lembranças de casamento eram feitas em dinheiro que cada convidado colocava debaixo do prato, à hora da última refeição. A cada um dos convivas era oferecido, à noite, um bolo de noiva (foto nº 4) que normalmente era guardado na algibeira do casaco.
 Foto n° 4
Entretanto todos os convidados acompanham os noivos a casa e aproveitam para ver "as ofertas", expostas num dos quartos da nova residência.
Por vezes, como os casamentos se realizavam quase na totalidade com emigrantes, os poucos dias que distavam da saída para o estrangeiro, eram passados em casa de um dos sogros. Em breve, o novo casal deixará a sua Ilha para cá voltar de passeio alguns anos mais tarde, já acompanhado pelos filhos.
Embora possa parecer que está encerrada "a festa" no dia do casamento, assim não acontece. O dia seguinte é novamente festivo. Reunir-se-ão os noivos com os familiares mais íntimos e as amigas da noiva. Há trabalhos que se fazem nesta ocasião pois toda a casa ficou num alvoroço e desarrumada, mas as amigas e a família tudo recomporão.
À tarde, a nova esposa encarrega-se da distribuição de "bolos de noiva" às pessoas que deram um presente, mesmo que tivesse sido enviado "um prato" à família no dia anterior.
Depois de tudo arrumado, as raparigas e cozinheiras reunem-se e em cortejo desfilam por entre os convidados. À frente, a cozinheira que se disfarçou com uns bigodes de carvão e segura ao ombro um machado e na mão um "pau de lenha". A imaginação de cada uma criará um disfarce: um prato com alguns petiscos, uma panela, uma bandeja com bolos, etc. A orquestra encerra o desfile: as tampas das panelas, paus, objectos metálicos. A festa anima-se e os convidados divertem-se!
No domingo seguinte ao casamento, a noiva deverá estrear um fato sobre o qual poderá usar uma "soeira" (casaco curto de malha de lã) nova também. Até aos nossos dias nenhuma noiva se atreveu a quebrar esta tradição.
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